Dor crónica

Quem nunca sentiu uma dor ao longo da sua vida? Porque temos dor? Porque é que há dores que não sabemos descreve-las mas na realidade as sentimos? Porque há dores que aliviam facilmente com um comprimido de Paracetamol e outras nem com a “farmácia” inteira?

Como profissional de saúde reflito diariamente sobre os cuidados que presto aos doentes e estas questões, entre outras, são-me muitas vezes colocadas pelos próprios e/ou seus familiares.

Apesar de todos os conhecimentos que fui adquirindo ao longo da minha carreira profissional e especializar-me na área de enfermagem oncológica, controlar adequadamente a dor de um doente, por vezes, torna-se um verdadeiro desafio. Na realidade nao existem melhores ou piores tratamentos, cada pessoa é um ser único e vive a sua dor de forma diferente dos outros.

Para melhor compreensão sobre esta temática, falarei sobre o conceito de dor, nomeadamente a distinção entre dor aguda e crónica, mecanismo da dor, sua caracterização,  avaliação e recursos disponíveis para um controlo adequado.

Dor aguda versus dor crónica

A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável desencadeada por uma lesão de tecidos. É algo intrínseco ao próprio indivíduo,  vivida na primeira pessoa sendo acessível a terceiros através da forma como esta a comunica, de uma forma verbal ou não verbal. Não se esgota na consciência de um estímulo,  prolongando-se num manifestar de emoções,  atitudes ou comportamentos. É,  portanto, uma percepção de quem a sente moldada pela sua personalidade,  medos, crenças e contexto social. 

A dor aguda surge como um dano fisiológico em que há uma activação dos receptores nociceptivos (“sensores” da dor) do local onde ocorreu a lesão. Quando uma dor surge como aguda mas nao cede ao tratamento nem desaparece com o passar do tempo, pode-se considerar uma dor crónica.  

A Direcção Geral de Saúde define dor crónica como uma dor prolongada no tempo, com difícil identificação temporal e causal, que causa sofrimento,  podendo manifestar-se com várias características e gerar diversos estádios patológicos.

Enquanto a dor aguda pode ser considerada como um sintoma de uma doença ou derivada de uma lesão,  a dor crónica é um problema de saúde específico,  uma doença por si só, podendo ter um impacto negativo na qualidade de vida dos doentes e seus familiares. Trata-se de uma dor com durabilidade superior a seis meses e tem repercussões a nível físico,  emocional e psíquico da pessoa. Esta pode vir a ter restrições no seu estilo de vida, conduzir a incapacidades como a dependência de terceiros e perturbar as relações interpessoais.

Mecanismos da dor

Consoante o local de origem e a base da causa desencadeiam-se diferentes tipos de dor: a dor nociceptiva,  a dor neuropática e a dor psicossomática.

A dor nociceptiva é provocada por uma lesão ou dano tecidular. Os nociceptores detectam estímulos da dor e transmitem-nos ao sistema nervoso central. Esta sensação de dor pode ser fácil de localizar através da pele, músculos, articulações,  ossos ou tecido conjuntivo (dor somática) ou de maior dificuldade de localização quando se tratam de órgãos internos como no caso, por exemplo, da apendicite (dor visceral).

A dor neuropática é provocada por uma lesão ou perturbação funcional do próprio nervo, tendo como factores desencadeantes perturbações metabólicas ou doenças infecciosas. Este tipo de dor é descrito como uma queimadura, formigueiro ou tipo choque eléctrico (sao exemplos a dor ciática e a infecção por herpes zoster, conhecida por zona).

A dor psicossomática ao contrário das anteriores que são provocadas por causas orgânicas, é caraterizada por manifestações apresentadas pelo corpo sem que os exames médicos consigam descobrir uma origem para tal sintoma. Perante este tipo de dor ouve-se muitas vezes,”você não tem nada, é da sua cabeça”. Torna-se fundamental a análise comportamental e emoções do indivíduo.

Avaliação da dor

Para uma avaliação cuidada da dor deve-se obedecer à complexidade do conceito “dor”, dando resposta às quatro seguintes dimensões: descrição (localização,  duração, irradiação, etc), causa (tratamento, debilidade, comorbilidade), factores psicológicos,  sociais e espirituais e o mecanismo desencadeante.

Por outro lado, torna-se essencial acreditar nas queixas dos doentes, avaliar a intensidade da dor com recurso a instrumentos de avaliação próprios,  realizar exame objectivo, atendendo a pormenores que podem mostrar o grau de desconforto do doente, avaliar o seu estado psicológico e ponderar a utilização de terapêuticas não farmacológicas que possam ser benéficas como complemento à terapêutica farmacológica prescrita.

Recursos para controlo da dor crónica

O controlo eficaz da dor é um direito dos doentes que dela padecem e um dever dos profissionais de saúde de desenvolver estratégias para colmatar/ aliviar a mesma.

Desde 2001, ano em que foi concebido o plano nacional de luta contra a dor, foram criadas unidades de dor em vários hospitais do país. Face à complexidade da dor e não existência de medicamentos considerados “milagrosos” ou “curativos”, justifica-se que a pessoa com dor crónica seja acompanhada, regularmente, por uma equipa especializada nesta área.

Os opóides, anticonvulsivantes, antidepressivos e analgésicos tópicos são algumas das opções terapêuticas para a dor crónica.  Associado à terapêutica farmacológica existem também as terapêuticas não farmacológicas como adjuvantes, cada vez mais considerados como recursos de “ouro” pelos doentes (exemplo da massagem terapêutica,  reiki, musicoterapia, hipnose, psicoterapia,  entre outros).

Perante estas considerações,  estou ciente que o intuito máximo do enfermeiro ou qualquer outro profissional que cuide de pessoas com dor crónica é  a obtenção de ganhos em saúde, uma vez que um doente com dor controlada possibilitará a diminuição da taxa de internamento e evitará o descontrolo de outros sinais e sintomas associados, como a dispneia, a ansiedade e a depressão e poderá contribuir para o seu bem-estar e, acima de tudo, melhoria da sua qualidade de vida.

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